CrI.Ativos da Favela revela 60 talentos da periferia de SP

Curso de audiovisual com Inteligência Artificial, parceria do Instituto Heineken, CUFA, The Town e Favela Filmes, abre pontes para o mercado de trabalho

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CrI.Ativos da Favela, parceria do Instituto Heineken, CUFA e Favela Filmes Rogério Casimiro/Divulgação

Um curso com duração de três meses em um laboratório tecnológico exclusivo para a capacitação criativa no universo audiovisual com inteligência artificial de 60 jovens talentosos de 18 a 29 anos de 35 favelas de São Paulo: essa é a síntese do projeto CrI.Ativos da Favela, idealizado pela Central Única das Favelas (CUFA), Instituto Heineken e The Town, com operação da Favela Filmes.

A formatura da primeira turma do projeto aconteceu no último dia 31, em São Paulo. O curso, ministrado pela Favela Filmes, ganhou vida a partir da reversão de 100% do lucro com as vendas de Heineken 0.0 durante os dias do festival The Town, que reuniu cerca de 500 mil pessoas durante cinco dias em São Paulo.

O investimento de R$1 milhão foi destinado à compra de equipamentos e aparelhos tecnológicos, contratação de professores e toda a gestão e estrutura do curso, que foi ministrado nas dependências da CUFA, no Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo.

"Desde a criação do Instituto queríamos fazer algo que exaltasse todo o potencial criativo de jovens das periferias e fazer o possível para dar novas oportunidades a eles", conta Vania Guill, gerente executiva do Instituto Heineken Brasil. "A gente ouvia de muitos jovens que eles queriam trabalhar com vídeo, com música, com a linguagem do audiovisual, mas não tinham acesso a equipamentos, cursos, a uma máquina fotográfica boa, uma câmera. E começamos a costurar essa parceria que resultou no CrI.Ativos da Favela", completa.

Além de aulas teóricas, os alunos participaram da produção da série Motoboy SP, da Rede Globo, fizeram uma ação de grafite nos muros da CUFA com o tema Ubuntu, o qual resultou em uma letra de música e clipe feitos por um dos grupos do curso. Além disso, tiveram uma experiência prática na produção do Reality Expo Favela Innovation, exibido também na Rede Globo, no programa "É de Casa". Ao final, foram seis curta-metragens autorais como trabalhos de conclusão de curso, onde colocaram em prática todo o conhecimento absorvido durante a capacitação.

Emmili Quéryn, de 25 anos, afirma que acompanhar a gravação da série Motoboy SP foi um dos momentos mais marcantes do curso. Ela sempre gostou de audiovisual, mas diz que aprendia as coisas "na raça" – ela nunca havia feito um curso na área.

"O curso me deu oportunidade de realmente aprender sobre audiovisual, entender os processos, estar com um professor que atua no mercado audiovisual e poder tirar dúvidas. Cada semana a gente tinha conteúdo sobre uma área diferente: produção, parte técnica, pré-produção, pós-produção", afirma.

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Emmili Quéryn - Rogério Cassimiro/Divulgação

"O curso me abriu possibilidades: sinto que consigo ocupar lugares, ter acesso a coisas que nunca imaginei e isso é muito especial. Eu sinto que posso ser vista, que posso realmente mostrar meu trabalho, mostrar que sou boa no que faço".

Emmili Quéryn, 25 anos, mora no Grajaú, zona sul de São Paulo

Coordenadora do CrI.Ativos da Favela e especialista em audiovisual, Débora Freire costuma dizer que talento e criatividade não têm classe social. "Foi uma honra coordenar esse processo com esses jovens, que são muito talentosos. Eles precisam desse espaço para poder expressar sua criatividade, mostrar do que são capazes, mostrar toda a potência que os jovens de favela tem."

Segundo Débora, o uso de inteligência artificial no audiovisual é bem recente. Os alunos do CrI.Ativos aprenderam usar a IA áudio, em imagens, vídeo e edição. "É preciso treinar a inteligência artificial para facilitar o processo de edição de vídeo, imagens e audio, na criação de conteúdo e de roteiro. Eles aprenderam como aplicar isso da área de audiovisual, que hoje é uma coisa muito nova. Estão saindo na frente de muitos profissionais."

Thiago Oliveira, 24 anos, um dos alunos que se formaram agora, lembra que passou a se interessar pelo audiovisual na pandemia de Covid-19. Começou a estudar em casa, por meio de cursos gratuitos na internet. Criou um coletivo com uns amigos (@variasfitafilmes) e foi através das redes sociais do coletivo que recebeu o convite para participar do processo seletivo para o CrI.Ativos da Favela.

"O CrI.Ativos foi um divisor de águas na minha vida, porque os cursos anteriores eram muito teóricos. E esse foi bem prático: a gente pegava em câmera, em equipamentos de iluminação, de som, o que foi essencial para eu conhecer um pouco de cada área do audiovisual. Descobri que gosto de roteiro, de pensar o produto antes de ser gravado, de entender para que lado vamos em um documentário", afirma Thiago.

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Thiago Oliveira - Rogério Cassimiro/Divulgação

"As portas estão começando a abrir pra mim. Quero trabalhar com ficção, fazendo roteiro e direção. E sei que esse é o meu caminho, que já comecei a trilhar".

Thiago Oliveira, 24 anos, mora no Parque Residencial Cocaia, zona sul de São Paulo

O clima na formatura era de realização, autoconfiança e excitação diante de novas possibilidades. Para Celso Athayde, fundador da CUFA, o CrI.Ativos da Favela é um exemplo a ser replicado. "Fazer um curso como esse, com tecnologia e qualidade, dando aos jovens a oportunidade de aprender o audiovisual, é não apenas uma forma de profissionalizar e capacitar, mas de permitir que eles se sintam importantes e valorizados", diz.

E completa: "E também é importante para a CUFA institucionalmente, pois é uma mensagem que damos à sociedade, a outras favelas, aos outros estados, de que é possível fazer coisas tão nobres quanto aquelas que a gente tanto admira."

O Instituto Heineken considera a iniciativa um sucesso, com possibilidade de expansão. "É um orgulho ver o potencial criativo desses jovens se materializando em trabalhos com a qualidade dos curta-metragens apresentados hoje. Muitos deles já estão atuando na área de audiovisual como freelancers ou estagiários. E a nossa intenção é abrir caminhos para que eles consigam entrar no mercado de trabalho", diz Vania.

Aos 19 anos, Tatiana Ribeiro diz já estar conseguindo ganhar ‘um dinheirinho’ com o seu trabalho na área. "Sempre sonhei em fazer audiovisual e estudar essa área. Era algo que sempre me instigou, mas nunca tive oportunidade. Aí surgiu o CrI.Ativos da Favela, que realizou o meu sonho e o de outros jovens. Logo que entrei no curso começaram a aparecer possibilidades de estágio e de freelancer. A Favela Filmes me chamou para participar de produções grandes, para a Globo, e fizemos produções nossas também. No curso, adorei fazer produção. Conheci a área de som e me apaixonei: aprendi a mexer no microfone, no gravador..."

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Tatiana Ribeiro - Rogério Cassimiro/Divulgação

"O curso me deixou mais confiante daquilo que eu sei que posso realizar. Descobri um novo talento e uma nova oportunidade, algo que uns meses atrás eu não acreditava que seria possível".

Tatiana Ribeiro, 19 anos, mora na favela da Brasilândia, zona norte de São Paulo

Agora, depois da conclusão do curso, os formandos ainda têm dois meses de mentoria, em que vão aprender a abrir empresa, emitir nota fiscal, a precificar o trabalho quando alguém pede um orçamento — questões práticas importantes para poderem decolar na profissão. "Eles vão passar por essa mentoria e, à medida em que forem avançando, vamos criar um banco de portfólios dos trabalhos deles, para apresentá-los para agências parceiras", diz Vania.

Para Athayde, o grande desafio é abrir portas para que esses jovens possam mostrar seus talentos. Outro desafio é desdobrar iniciativas como esta. "Nossa expectativa é que possamos fazer o mesmo no Complexo do Alemão (Rio de Janeiro), em Heliópolis e em tantas outras favelas deste país afora. E que esse projeto não seja apenas com a Heineken. Que outras instituições, outras empresas, outras ONGs possam se inspirar em um programa tão relevante como esse e possam também formar outros jovens", diz.

Débora concorda: "Essas iniciativas precisam ter continuidade. Estamos formando 60, mas quanta potência tem nessas favelas de São Paulo? , Quantos jovens precisando de uma oportunidade como essa? O programa tem que continuar. Isso foi um start e vimos o potencial do projeto. Por isso, defendemos a continuidade para que outros jovens tenham acesso também".

*Conteúdo patrocinado produzido pelo Estúdio Folha