Valorização do professor se faz com apoio e autonomia

Webinário organizado pela Unesco e pelo Instituto Nelson Wilians apresentou propostas para dar mais protagonismo aos docentes e ajudar a reduzir as desigualdades educacionais no país

Qual o papel dos professores para a oferta de uma educação de qualidade e equitativa? Este foi o mote do webinário “Desafios da Carreira Docente: Professores no Centro da Resposta à Educação”, uma iniciativa da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e do Instituto Nelson Wilians, com apoio social da Folha, realizado nesta quinta-feira (14/10).

O evento, em comemoração ao Dia Mundial do Professor, celebrado em 5 de outubro, lançou um olhar para os desafios enfrentados pelos docentes, especialmente no atual contexto de retomada progressiva das aulas presenciais no Brasil. O debate foi mediado pela jornalista Roberta Salomone, da GloboNews.

Como lembrou Marlova Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil, os estudantes brasileiros ficaram 52 semanas sem aulas presenciais – mais de um ano letivo.

“Nunca houve uma interrupção por tanto tempo e corremos o risco de uma catástrofe da aprendizagem”, afirmou Marlova, detalhando que a retomada presencial envolve repensar os currículos, assegurar financiamento e oferecer condições adequadas para aqueles que estão no centro do processo educativo: professores e estudantes.

Essas medidas são essenciais para que os docentes desenvolvam todo seu potencial e ajudem o país a atingir o ODS 4 (Objetivo do Desenvolvimento Sustentável), que prevê que até 2030 seja assegurada a oferta de educação inclusiva e equitativa de qualidade, capaz de promover oportunidades de aprendizagem para todos ao longo da vida.

Nessa perspectiva, educação de qualidade e garantia de direitos caminham juntas, ponderou a diretora-presidente e fundadora do Instituto Nelson Wilians, Anne Wilians. Para ela, o professor é o protagonista para fazer a ponte entre educação e direito. “É preciso valorizar, entender e promover o professor em todos os aspectos para a transformação de uma sociedade mais justa e equitativa”, afirmou.

No entanto, são muitos os desafios. De acordo como o Inep (Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais), são 2,2 milhões de professores na educação básica, que, muitas vezes, não contam com condições adequadas para atuar e recebem uma formação descolada das suas necessidades no dia a dia da sala de aula.

Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas), lembrou que muitos dos problemas relacionados à aprendizagem já existiam antes da pandemia. “São muitos os desafios, mas também é preciso olhar para as potências da profissão docente do ponto de vista do professor e das políticas públicas para apoiá-los”, disse. Isso significa implementar políticas de apoio para os professores atuarem, de um lado, na recuperação da aprendizagem no pós-pandemia e, de outro, na oferta de uma educação sintonizada com o mundo contemporâneo.

Na visão de Claudia, os professores precisam ensinar os alunos a “aprenderem a aprender ao longo da vida” para se adaptarem a um mercado de trabalho, que, cada vez mais, tende à automatização e exige competências mais sofisticadas.

Neste cenário, o papel do professor é ensinar a pensar, o que significa aprender continuamente e em colaboração com seus pares.

Para Bernardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, a chave da valorização do docente é sua autonomia, o que, para ela, está diretamente relacionada à formação. Se o professor é bem formado, ele é capaz de criar ambientes de aprendizagem que permitam aos estudantes se apropriarem dos saberes necessários ao seu desenvolvimento.

Segundo ela, a formação continuada tem de se vincular, necessariamente, à escola. “Nos últimos 20 anos, vimos muitas interferências nas políticas de formação de professores. Programas pensados por grupos de elite que caem nas redes de ensino e interferem no currículo e nas possibilidades de escolha de cada professor”.

A atuação da educação em conjunto com outras áreas é a chave para uma educação mais equitativa, tendo em vista uma educação de qualidade e com equidade racial e de gênero, defende Gina Vieira, professora na rede pública do Distrito Federal.

Ela lembra que as meninas e as mulheres vivem uma situação mais precária, o que está relacionado ao fato de o Brasil ser um país de base escravocrata e patriarcal. “Falar de meninas e mulheres no Brasil é falar de um racismo estrutural que criou uma série de desigualdades e negou acesso a direitos.”

Como exemplo, Gina cita dados da Rede Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos: a cada 20 minutos uma menina se torna mãe no Brasil. “É assustador o que o Brasil faz com a infância. É essencial levar em conta o ODS 4, que preconiza a igualdade entre meninas e meninos na educação”, analisou a professora, que é coordenadora do projeto Mulheres Inspiradoras.

A professora Shirley Costa, coordenadora dos programas Ciências na Escola e Meninas nas Ciências da rede estadual da Bahia, afirmou que o sucesso de iniciativas capazes de modificar o quadro de desigualdades de gênero no ambiente escolar passa por iniciativas que coloquem o professor no centro.

Ela lembrou que, na Bahia, os programas foram feitos para dar protagonismo ao professor e, com isso, foram surgindo projetos de pesquisa desenvolvidos por meninas. A dinâmica dos projetos, segundo Shirley, se aproxima do que se viu durante o período do ensino remoto. “Durante a pandemia, foram surgindo vários grupos de professores para formação, colaboração e aulas coletivas”, lembrou.

Segundo ela, esse é um caminho para os professores terem protagonismo para pensar a sua área de atuação, sua aula e o material didático que utilizam. “O professor precisa de apoio e é importante um olhar cuidadoso para o processo formativo. Mas juntos eles podem fazer muita coisa.”

Professores enfrentaram esse momento de crise com inovação e vontade

Anne Wilians Diretora-presidente e Fundadora do Instituto Nelson Wilians
Anne Wilians, diretora-presidente e Fundadora do Instituto Nelson Wilians - Divulgação

Fundadora e presidente do Instituto Nelson Wilians, a advogada Anne Wilians acredita que é preciso desenvolver estratégias urgentes para reverter os impactos negativos provocados pela pandemia de Covid-19 na educação. “Algumas avaliações educacionais já vêm demonstrando os impactos negativos que esse período teve nos estudantes”, alerta. Cabe ao Poder Público estabelecer essas diretrizes, mas toda a sociedade tem de se envolver nessa discussão.

Por que o Instituto Nelson Wilians decidiu promover um evento sobre educação com ênfase no papel do professor?

A missão do INW é promover o empoderamento social e a emancipação humana por meio de programas e iniciativas focados em Educação e Direito, fortalecendo o exercício da cidadania, a democratização de oportunidades e a mitigação das desigualdades sociais. É através da educação que agimos e fomentamos estratégias de combate às desigualdades sociais, buscando o desenvolvimento equitativo da sociedade a partir do exercício pleno da cidadania. Esse exercício depende da mediação e da consciência crítica dos professores, aqueles que promovem a prática da liberdade e a democratização dos Direitos Humanos.

Qual é o papel do professor no atual cenário, em que, sob o impacto da pandemia de Covid-19, enfrentamos o aumento das desigualdades educacionais?

A atuação do professor mudou durante a pandemia - não só por deixar a sala de aula presencial, mas também por compreender a dificuldade que a maior parte da população brasileira tem para acessar uma internet boa e de qualidade e a dificuldade dos alunos em realizar tarefas sem a orientação de um adulto. Todas essas questões impactam o papel do professor, que agora precisa ter um olhar mais atento em relação os seus alunos e às suas necessidades, aumentando sua escuta e tendo mais empatia sobre as dificuldades, ausências e necessidades de cada um de seus alunos.

Qual o papel do Poder Público na superação desses desafios?

O papel do Poder Público é fundamental, tendo em vista que queremos alcançar uma educação gratuita e de qualidade para todos, pois a educação é fator essencial para o progresso de uma sociedade. Cabe ao Poder Público estabelecer as condições para que essa educação aconteça de forma geral no país. Deve preocupar-se desde a formação do docente até as condições durante sua atuação em sala de aula. Nessa pandemia verificamos o quanto os professores são essenciais para garantir uma educação de qualidade. Os professores enfrentaram esse momento de crise com inovação e força de vontade. Tiveram que reinventar suas aulas e aprender novos conhecimentos, como a utilização das tecnologias. Algumas avaliações educacionais já vêm demonstrando os impactos negativos que esse período teve nos estudantes, principalmente naqueles que vivem em condições de vulnerabilidade. Desenvolver estratégias de recuperação dessa aprendizagem é essencial. O MEC, governos estaduais e municipais devem considerar as diversas realidades existentes e oferecer tudo o que for necessário para superarmos esse momento. Por outro lado, é importante destacar que não podemos esquecer que a responsabilidade da educação não é apenas do Poder Público ou dos professores. Todos devem dar sua contribuição para a construção de uma educação de qualidade. A sociedade civil tem um papel muito importante para que isso aconteça.