Saudável e ativa, comunicadora sofre há mais de 3 meses com sintomas da Covid Longa

Carla Fillipini diz que jamais imaginou que pudesse ter tantas complicações, mas teve trombose, passou por três internações por conta de uma inflamação multissistêmica e continua em tratamento

Com 42 anos, corredora e exemplo de estilo de vida saudável, a comunicadora Cacá Fillipini nunca imaginou que poderia sofrer tanto por conta da infecção pelo coronavírus. Ela nem sabe como acabou pegando o vírus, no início do ano, e ainda está tratando das sequelas.

Cacá Fillipini na última das três internações para tratar sintomas pós-Covid
Cacá Fillipini na última das três internações para tratar sintomas pós-Covid - Arquivo pessoal

Ela mora em São Paulo, mas tem um sítio em Bragança Paulista, onde passou praticamente toda a pandemia. No sítio, na madrugada de 4 de janeiro, começou a ter febre. Foi até a Santa Casa de Bragança e teve o diagnóstico de sinusite, com prescrição de antibiótico e antitérmico. Os sintomas melhoraram. “Na semana seguinte, fiz um bacalhau e não senti o cheiro. Percebi que tinha perdido o olfato. Voltei para São Paulo, fiz o teste RT-PCR, que confirmou a infecção por Covid.”

A comunicadora não tinha febre nem qualquer outro sintoma, mas, no dia seguinte, procurou um hospital para saber se havia algum comprometimento pulmonar. Fez uma tomografia do tórax e exames laboratoriais. O pulmão estava ok. Mas o exame de sangue mostrou alteração no D-dímero, considerado um marcador de coagulação e que, no caso de infecção por Covid, pode representar maior risco de trombose. Um ultrassom doppler localizou trombose na perna direita.

“Já não me deixaram mais caminhar: fui de cadeira de rodas para a UTI, onde fiquei de 13 a 19 de janeiro. Nas primeiras 48 horas, não pude sair da cama nem para ir ao banheiro, para evitar que o coágulo se deslocasse para o pulmão, o coração ou o cérebro, ocasionando embolia ou mesmo AVC.”

Foi durante a internação que Cacá começou a sentir muita dor de cabeça — sintoma que dura quase três meses. “Os médicos disseram que era um sintoma normal da Covid e deveria passar em alguns dias. Mas não passou mais”, conta.

Depois da primeira alta, Cacá retornou ao hospital para novos exames laboratoriais após 7, 14 e 30 dias. “Os resultados estavam todos alterados, indicando inflamação do organismo. A dor de cabeça estava cada vez pior. Por conta da dor, tinha insônia. E também confusão mental e quadros bizarros de esquecimento, a ponto de conversar com alguém e não registrar que falei com a pessoa.”

No dia 29 de janeiro, teve o diagnóstico de Síndrome Pós-Covid. “Em 14 de fevereiro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a chamar esse quadro não mais de Síndrome Pós-Covid e sim Long Covid, por aqui, Covid Prolongada ou Covid Longa”, afirma.

Cacá conta que, logo depois de sair do hospital, sentia uma tristeza profunda e vontade de chorar o tempo todo. “Os médicos disseram que isso era comum nos pacientes que foram submetidos à internação na UTI. Como parte do meu tratamento neurológico, estou fazendo terapia uma vez por semana, onde trabalho questões ligadas à doença e o que vivenciei e ainda vivencio.”

Outro efeito colateral que ela teve foi a piora da visão. “Antes, usava óculos para leitura. Hoje uso o tempo todo: para perto, para longe. Sem óculos, vejo tudo embaçado.”

No início de fevereiro, a comunicadora começou um tratamento de combate à dor de cabeça com um neurologista. Fez mais uma série de exames, de ressonância magnética a vários neurológicos. Os exames de imagem estavam nos parâmetros de normalidade. Os laboratoriais continuavam alterados.

“No meio de fevereiro as dores pioraram, beirando o insuportável. Mal conseguia sair da cama. Fui duas vezes ao pronto socorro para tomar analgésicos na veia. Nada resolvia.”

Em março, diante do diagnóstico de inflamação multissistêmica, Cacá passou por duas internações, a última delas, por dez dias, onde foi feito um tratamento de bloqueio da dor. “A ideia é tirar o paciente da crise para que seja possível tratar a origem da dor, e esse tratamento possa começar a fazer efeito”, diz.

“Continuo com dor de cabeça crônica em um grau menos forte, controlada com muita medicação. Mesmo assim, tenho picos de dor e lentidão de pensamentos. Mas já estou muito melhor do que antes.”

Cacá diz que jamais imaginou que pudesse ter sintomas tão pesados e tantas complicações pós-Covid.

“Embora eu estivesse me cuidando, usando máscara e álcool em gel, talvez tenha baixado a guarda porque achava que o fato de estar na faixa dos 40 anos, saudável, sem comorbidades ou doenças pré-existentes, ser ativa, com hábitos saudáveis, eu não teria nenhuma complicação caso pegasse o coronavírus. Achei que ficaria assintomática ou teria sintomas de gripe…”

E completa: “A Covid me ensinou que, quando a gente está lidando com uma doença nova e no meio de uma pandemia, todo cuidado é pouco. O coronavírus não escolhe sexo, idade ou classe social: todo mundo está vulnerável.”

Conheça os sintomas pós-Covid que acometeram Cacá Fillipini nos últimos três meses

  • Dores de cabeça (até hoje)

  • Falta de apetite (na primeira semana)

  • Diarreia (na primeira semana pós-internação)

  • Insônia (por dois meses)

  • Falta de ar, inclusive em repouso (começou duas semanas depois do diagnóstico e só melhorar após 30 dias seguidos de fisioterapia respiratória)

  • Muito cansaço (principalmente no primeiro mês)

  • Olhos embaçados durante o dia e com muita secreção ao acordar, similar a conjuntivite (ainda presente, porém de forma mais branda)

  • Perda parcial de visão (aumento de grau)

  • Lentidão de raciocínio (por quase três meses)

  • Esquecimento / memória recente não construída (até hoje)

  • Dores musculares (até hoje)

  • Perda de força e de massa muscular (até hoje)

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