"Achava que a Covid-19 não era tão grave, mas é, e muito"

Empresário conta que passou a se cuidar depois de ficar 30 dias internado, sendo 23 na UTI

Até setembro de 2020, o empresário Jun Moreira, então com 52 anos, morador de Pinheiros, em São Paulo, levava sua vida quase que normalmente, sem se preocupar com a pandemia de Covid-19. Na maior parte do tempo, nem sequer tomava os cuidados básicos, como distanciamento social, uso de máscara e de álcool em gel.

Era cobrado pela mulher, Adriana, para se cuidar, mas não dava muita atenção.

“Não é que eu não acreditava na doença, mas achava que não era assim tão grave, e não via motivos para mudar a minha rotina”

A conscientização para a gravidade da doença veio da pior maneira. Moreira conta que começou a se sentir mal, com sintomas de gripe. Foi ao pronto-socorro, onde foi medicado com corticoides. “Melhorei e fui liberado. Mas, ao voltar para casa, a evolução da doença foi muito rápida. Em dois dias eu estava com uma forte falta de ar e retornei ao hospital, onde permaneci internado por 30 dias, 23 deles na UTI.”

Mesmo quando recebeu alta, o empresário precisou voltar para casa respirando com a ajuda de um cilindro de oxigênio, já que a falta de ar ainda era acentuada.

“Foi uma luta. Tive 80% dos pulmões comprometidos. Por três vezes os médicos recomendaram que eu fosse entubado, para diminuir o esforço respiratório. Mas, como eu estava consciente, pude tomar a decisão e não deixei. Tinha muito medo do momento de extubar. Achava que não resistiria. Consciente dos riscos, optei por continuar o tratamento com medicamentos, aparelhos e fisioterapia respiratória.”

Segundo Moreira, além dos medicamentos, fisioterapia e demais cuidados, um equipamento foi fundamental para a sua recuperação: o BiPAP, um compressor de ar utilizado para tratar doenças pulmonares. O termo é a abreviação para Bi-level Positive Airway Pressure (pressão positiva em vias aéreas a dois níveis, um para inspiração e outro para expiração).

O aparelho faz uma ventilação artificial, o que ajuda o paciente a diminuir o esforço em doenças que causam insuficiência respiratória. Seu uso tem indicações e tempos específicos para cada caso. Contudo, Moreira diz que em muitos dias teve que usar o aparelho além do tempo recomendado, com o devido acompanhamento médico.

O empresário afirma que seu tratamento foi convencional, que não tomou nenhum dos medicamentos que, mesmo sem comprovação científica, ganharam fama ao longo da pandemia.

Moreira diz ter certeza de que se contaminou no trabalho. Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, dos 18 aos 43 anos ele trabalhou em multinacionais, de onde saiu para se tornar empresário do ramo de estética automotiva. Por ironia, um dos serviços oferecidos pela sua empresa é uma higienização de automóvel, específica para proteção contra a Covid. “Nem assim me conscientizei dos riscos de adquirir a doença de maneira grave.”

Além de vivenciar a doença em toda a sua gravidade, Moreira também carrega a culpa de ter transmitido a Covid para a mulher, que estava em tratamento de um câncer de mama. Ela ficou sete dias internada. Por sorte não precisou ir para UTI. Sua filha, de 23 anos, também se contaminou. Teve sintomas mais leves e não precisou se internar.

Ainda sem estar totalmente recuperado – ele e a mulher permanecem com deficiência de paladar e olfato -, Moreira mudou de atitude. “Perdi dez quilos na internação. A gravidade da doença, os riscos que corri, além de contaminar minha mulher e filha, me serviram de lição.”

Agora, com 53 anos completados em novembro, Moreira é um defensor da vacinação. “Eu e minha família vamos nos vacinar assim que chegar a nossa vez. E hoje tomo todos os cuidados para evitar a contaminação pela segunda vez. Só fico sem máscara no trabalho quando estou absolutamente sozinho”, conclui.

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