Investimento em capital humano é essencial na busca por soluções

O morador da floresta não só sabe onde está o problema, mas também como resolvê-lo; educação, conectividade e tecnologia devem ser tratadas como prioridade

A Amazônia é hoje peça central para a compreensão do desenvolvimento sustentável e o melhor exemplo de que manter uma floresta em pé é muito melhor do que derrubá-la.

O tema é sensível porque evidencia problemas como desmatamento, queimadas, extração ilegal de madeira e de garimpo e por isso, segundo ambientalistas e cientistas do clima, é preciso focar nas soluções para o território.

Natalie Unterstell, presidente do think tank Talanoa, um instituto dedicado à política climática, explica que é necessário investir em um capital humano de qualidade no território.

"O mercado de trabalho na Amazônia ainda é muito informal. É preciso se concentrar em gerar emprego e qualificar a mão de obra local", explica Unterstell.

Alguns estudos de caso mostram que importar mão de obra de fora pode prejudicar indicadores sociais e que, por isso, o desenvolvimento precisa andar junto com a população que ali reside.

"Além de mão de obra, é importante lembrar que já temos um ecossistema de empreendedorismo na Amazônia. Há quem esteja trabalhando com o manejo de pirarucu e extração de açaí para exportação, por exemplo."

Virgilio Viana, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)
Virgilio Viana, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) - Michael Dantas / Divulgação

Um dos cases de sucesso é o projeto da pimenta Jiquitaia Baniwa, em que mulheres do povo Baniwa do Alto do Rio Negro (AM) protagonizam a produção da especiaria em busca de maior autonomia e geração de renda. Em parceria com o Instituto Socioambiental, o projeto acontece desde 2005 e é exemplo de interculturalidade e da parceria entre povos indígenas e não indígenas.

"É preciso investir nas pessoas", explica Virgílio Viana, superintendente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), ONG voltada para a capacitação de agentes comunitários da região amazônica.

"O foco está na cocriação das soluções. O morador da floresta não só sabe onde mora o problema, mas também como resolvê-lo", afirma.

Em operação desde 2008, a FAS promove o desenvolvimento sustentável da região através de programas de educação que começam na primeira infância. Em parceria com governos locais, operam iniciativas que vão desde a alfabetização de crianças até cursos técnicos após o ensino médio.

"Precisamos promover uma educação que enfrente os problemas reais e gerir um ecossistema para a solução desses desafios", completa Viana.

A ONG também trabalha com programas que implementam conectividade e tecnologia social. O objetivo é oferecer infraestrutura e conhecimento para que os jovens possam gerar renda e fortalecer as suas respectivas identidades.

"Esse envolvimento é muito importante para manter o conhecimento vivo e fazer com que a população local tenha a oportunidade de se tornar empreendedora", comenta Viana.

Seja no turismo, na pesca ou na extração sustentável de recursos, a FAS promove o empreendedorismo local por meio de cursos e da conexão de agentes: "Há um caso muito interessante de dois jovens que fizeram um dos cursos técnicos da FAS e abriram uma startup de óleo de andiroba. Hoje faturam mais de R$ 300 mil por ano. Há muitos cases mostrando que, de fato, as pessoas podem ganhar muito mais dinheiro com a floresta conservada", conclui.