Força-tarefa pela Amazônia

Alertas apontam um risco crescente e real de redução e transformação da floresta caso nada de concreto seja feito até o início da próxima década; atuando juntos, empresas e diversos setores da sociedade se mobilizam para, de forma transversal e sustentável, reverter essa situação

Vegetação típica da área da Amazônica Legal, que tem 5 milhões de metros quadrados

Vegetação típica da área da Amazônica Legal, que tem 5 milhões de metros quadrados Shutterstock

A urgência da crise climática, e no caso do Brasil, a acelerada destruição da Amazônia têm feito surgir uma série de organismos interdisciplinares que pregam uma visão múltipla para não apenas salvar a floresta como também levar desenvolvimento sustentável para os ribeirinhos, indígenas e quilombolas que vivem na região. Para resolver o que o pesquisador Beto Veríssimo chama de "paradoxo amazônico", é preciso realmente a "ação de várias forças-tarefas". E elas estão bastante ativas.

O próprio Veríssimo, engenheiro agrônomo que estuda a Amazônia há décadas, está na coordenação de uma delas. O Projeto Amazônia 2030 é uma iniciativa conjunta do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) – instituição cofundada por Veríssimo – e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados em Belém (PA), com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro. O Mundo Que Queremos é a organização parceira responsável pela comunicação do projeto.

O objetivo macro do Amazônia 2030 é nada mais nada menos que arquitetar um plano de desenvolvimento sustentável para a Amazônia brasileira. Com isso, afirmam os coordenadores, a região terá condições de alcançar um patamar maior de desenvolvimento econômico e humano e atingir o uso sustentável dos recursos naturais em 2030.

O paradoxo a ser enfrentado, segundo o diagnóstico já feito, não é trivial, como ficou claro no debate realizado no fim de agosto para a apresentação detalhada do plano. A mediação das conversas coube ao Derrubando Muros, um movimento formado por empresários, investidores, banqueiros, políticos e intelectuais.

A contradição presente na região hoje, mostram os números, é gritante. As emissões de carbono da gigantesca área, por causa do desmatamento, equivalem a de um país rico, porém, o bem-estar da população local inexiste. Tudo o que o Movimento Amazônia 2030 sustenta está lastreado em um conjunto de 49 estudos que contaram com a participação de 60 pesquisadores.

Uma das pesquisas mostra que existem 8 milhões de desocupados na região que, se empregados, movimentariam R$ 200 bilhões/ano, a partir de um salário médio de R$ 2.000/mês. A Amazônia, onde 32% da população está na faixa da extrema pobreza, ainda tem um boom demográfico, ao contrário de outras regiões brasileiras.

As matrículas em cursos profissionalizantes entre jovens de 15 a 29 anos é de 9%, enquanto no resto do Brasil a taxa está em 16%. O que mostra que a educação também é um grande gargalo para os jovens da região.

Movimento empresarial

"Temos a oportunidade única, os recursos e o conhecimento para dar sequência às boas práticas e, mais do que isso, planejar estrategicamente o futuro sustentável do Brasil. Precisamos fazer as escolhas certas agora e começar a redirecionar os investimentos para enfrentamento e recuperação da economia brasileira em um modelo de economia circular, de baixo carbono e inclusiva, em que não haja controvérsias entre produzir e preservar. Em nosso entendimento, esse é o melhor caminho para fincarmos os alicerces do país para as próximas gerações. Caso contrário, corremos o risco de ficarmos à margem da nossa própria história."

O ponto de vista presente no parágrafo anterior não saiu de uma ONG ou do gabinete de trabalho de um acadêmico, mas faz parte de um documento público, apresentado à sociedade brasileira pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro Para o Desenvolvimento Sustentável). Assinam o comunicado, que vem sendo entregue, em um outro formato, para os candidatos à Presidência, cem grandes empresas que operam no Brasil. São organizações que formaram o grupo Movimento Empresarial pela Amazônia. E o "combate inflexível e abrangente ao desmatamento ilegal na Amazônia e demais biomas brasileiros" é o primeiro eixo que precisa ser solucionado, segundo o documento assinado por boa parte de quem gera o PIB Nacional.

O CEBDS é apenas uma das instituições que formam a rede Uma Concertação pela Amazônia. Iniciativa também recente que reúne pessoas, instituições e empresas voltadas para o objetivo único de promover a conservação e o desenvolvimento sustentável do território amazônico. No total, são 400 lideranças engajadas na causa. Uma das iniciativas do grupo é a montagem da plataforma Amazônia Legal em Dados, que reúne a evolução, até 2021, de indicadores de Saúde e Economia, incluindo expectativa de vida, mortalidade infantil, gravidez na adolescência, PIB, taxas de desocupação e desalento.