Volta às aulas reforça a importância de vacinar os adolescentes contra a meningite

Adolescentes e adultos jovens são os principais transmissores da doença meningocócica 1

Estudantes de vários estados brasileiros se preparam para retomar gradualmente às aulas nos próximos meses depois de um longo período afastados das escolas em decorrência da pandemia de Covid-19. Em muitos casos, os alunos irão mesclar aulas online e presenciais.2

Além de reforçar os cuidados com a higiene e o distanciamento social por conta do novo coronavírus, especialistas destacam a necessidade de vacinar os adolescentes contra a meningite antes da volta às salas de aula.

“Estamos vivendo um período peculiar de maior distanciamento social como resultado da pandemia. O aumento do convívio pode aumentar o contágio de doenças como a meningite. Por isso é tão importante vacinar antes da volta às aulas”, afirma a médica pediatra Márcia Faria Rodrigues, especialista em adolescentes.

A preocupação se justifica: segundo dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, entre 2017 e 2019, a cobertura acumulada para a vacina meningocócica C foi de 41% entre os adolescentes de 11 a 14 anos3. O objetivo do Ministério da Saúde é alcançar cobertura vacinal maior ou igual a 80% do público-alvo da vacinação.4

A pediatra Márcia Rodrigues reforça que é preciso alertar adolescentes e pais e responsáveis que não basta ter recebido as doses contra a meningite C na infância. É fundamental que o adolescente receba o reforço da vacina meningocócica ACWY3, porque eles são os principais transmissores da bactéria causadora da meningite.4

Desde 2020, a vacina meningocócica ACWY foi incorporada ao PNI para as faixas etárias de 11 e 12 anos.4

“Trata-se de uma vacina disponível o tempo todo nos postos e que não depende de campanha. Ao atingir essa idade o adolescente deve ser vacinado”, diz o pediatra e infectologista Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

O infectologista lembra que os adolescentes tendem a se achar invencíveis e, por isso, é preciso mais campanhas de esclarecimento e do envolvimento dos pais. “A vacina contra a meningite, por exemplo, tem uma cobertura muito baixa. Seria necessário que pelo menos 80% deles recebessem a vacina conjugada da meningite (ACWY), que o PNI passou a oferecer na rede pública a partir do ano passado”, diz.

Segundo o médico, os adolescentes têm a maior taxa de colonização da bactéria que causa a doença meningocócica. Vacinar o adolescente é uma estratégia que, além de proteger o indivíduo, protege também a comunidade.

“A meningite meningocócica é uma doença que tem características peculiares. Uma delas é que, embora a maior taxa de incidência da doença ocorra principalmente no primeiro e no segundo ano de vida, a maior taxa de incidência de colonização ocorre nos adolescentes. É o grupo etário onde se encontra a maior taxa do estado de portador da doença.”

Sáfadi explica que a bactéria é transmitida de uma pessoa para outra pela respiração. “Não necessariamente quem contrai a bactéria desenvolve a doença, mas quem a contraiu a coloniza na garganta e pode infectar outras pessoas que desenvolverão a doença”, diz.

A vacina conjugada ACWY, ressalta o médico, não protege da doença apenas quem é vacinado. Ela impede também que a pessoa seja colonizada pela bactéria, e assim elimina-se a possibilidade de transmissão. “Uma vez que se tenha oportunidade de vacinar os adolescentes em larga escala, atingindo uma grande cobertura, se interrompe o ciclo de transmissão da doença para os grupos não vacinados”.

Segundo o médico, uma estratégia que teve êxito para se obter altas coberturas de vacina em adolescentes foi a chamada vacinação escolar. “Em alguns países europeus, como a Itália, a solução foi de, ao invés de levar o adolescente ao posto, levar a vacina até ele”. Sáfadi reconhece que levar vacinação às escolas no Brasil não é algo simples. Depende de planejamento, logística e investimento. Ele acredita, entretanto, que é uma estratégia que vale a pena ser discutida a fundo e amadurecida, com o envolvimento dos órgãos competentes e dos Ministérios da Saúde e da Educação.

Para a pediatra Márcia Rodrigues, é preciso que os pais, os responsáveis e os próprios adolescentes compreendam que a vacinação é um direito para a proteção coletiva da saúde. ​

Referências

1. Barroso DE, Carvalho DM, Nogueira AS, Solari CA. Doença meningocócica: epidemiologia e controle dos casos secundários. Rev Saúde Pública. 1998 Fev.;32(1):89-97.

2. https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/01/dez-estados-retomam-aulas-presenciais-em-fevereiro-com-reforco-e-distanciamento-entre-alunos.shtml

3. https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-11/sociedade-de-imunizacoes-lanca-campanha-voltada-adolescentes

4. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/22268g-DocCient-Calendario_Vacinacao_2020.pdf

5. SESA – Secretaria de Estado da Saúde. Informe Técnico. Orientações técnico-operacionais para a Vacinação dos Adolescentes com a Vacina Meningocócica ACWY (conjugada). Brasília; 2020

MAT-BR-2100525